Campanha da Fraternidade 2026 coloca moradia digna no centro do debate social no Brasil

Morar — e morar dignamente — segue sendo um dos grandes problemas estruturais da sociedade brasileira. Embora o país tenha registrado, nos últimos anos, o menor patamar histórico do chamado déficit habitacional, estudos indicam que aproximadamente 40% das residências ainda não oferecem condições adequadas para uma vida digna. Em outras palavras: nunca houve tão poucos brasileiros sem teto, mas uma parcela expressiva da população vive em submoradias, em condições precárias.
Essa contradição está no centro do tema escolhido para a Campanha da Fraternidade 2026, iniciativa anual da Igreja Católica no Brasil voltada à conscientização social, realizada tradicionalmente durante o período da quaresma.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza, no próximo 18 de fevereiro, Quarta-feira de Cinzas, em sua sede, em Brasília (DF), às 10h, a cerimônia oficial de abertura da Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano propõe à Igreja e à sociedade a reflexão sobre a moradia como condição essencial para a dignidade humana.
Com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Campanha quer iluminar, à luz do Evangelho, a realidade de milhões de brasileiros que ainda não têm acesso a uma casa adequada. A escolha do tema acolhe sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas e reforça o compromisso histórico da Igreja com a defesa dos direitos sociais e da justiça.
A definição do tema da Campanha da Fraternidade cabe ao colegiado de bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entidade responsável pela coordenação do projeto. O processo leva em conta tanto sugestões internas quanto demandas urgentes da sociedade brasileira.
No caso da edição de 2026, a proposta partiu da Pastoral da Moradia e Favela do Brasil, organismo da Igreja que atua diretamente na defesa do direito à moradia. A pastoral apresentou aos bispos a necessidade de recolocar o tema no centro do debate público, diante da persistência de situações habitacionais indignas em todo o país.
Por que discutir moradia
A campanha busca chamar atenção para a realidade de milhões de brasileiros que vivem em habitações improvisadas, inseguras ou sem acesso adequado a serviços básicos. O objetivo é ampliar o debate e estimular ações concretas nas comunidades, indo além dos números oficiais sobre déficit habitacional.
“Moradia é um tema essencial para a população brasileira, assim como a alimentação. É um direito básico”, argumenta o frade franciscano capuchinho Marcelo Toyansk Guimarães, coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela do Brasil e assessor da Comissão Justiça e Paz da CNBB, que destaca a urgência de políticas públicas e do engajamento social para garantir o direito constitucional à moradia digna.
A Campanha da Fraternidade é um dos projetos sociais mais antigos e capilarizados da Igreja Católica no Brasil. Sua primeira edição ocorreu em 1961, inicialmente de forma localizada. A partir de 1962, passou a ser realizada durante a quaresma — período que vai do Carnaval à Páscoa — e, em 1964, ganhou alcance nacional, em um formato semelhante ao atual.
Hino Oficial da Campanha da Fraternidade
Abertura oficial em Brasília
A abertura nacional será realizada na sede da CNBB, no Auditório Dom Helder Câmara, reunindo representantes de pastorais sociais, movimentos populares, organismos e parceiros da Igreja. O momento marca o início das mobilizações da Campanha em todo o país e apresenta oficialmente os objetivos, subsídios e propostas pastorais da edição de 2026.
A cerimônia contará com a participação do secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoerpers, e do secretário-executivo de Campanhas da CNBB, padre Jean Poul Hansen, e contará com apresentação do tema e do lema, além do convite à participação das comunidades durante o tempo da Quaresma e divulgação de vídeos.
A experiência da comunidade católica de Trindade em Salvador (BA) de conquista da moradia digna para pessoas em situação de rua será apresentada durante a cerimônia. O trabalho é desenvolvido pelo irmão Henrique Peregrino e demonstra a ação da Igreja na promoção do acesso à moradia digna.
A CF 2026 chama atenção para dados alarmantes da realidade habitacional brasileira: 6,2 milhões de famílias não têm moradia adequada e cerca de 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para a Campanha, a casa é a porta de entrada para todos os demais direitos. Sem moradia, faltam segurança, saúde, educação e dignidade. Inspirada na Encarnação de Cristo – “Ele veio morar entre nós” -, a proposta convida à conversão pessoal e social.
Lançamento celebrativo em Aparecida
Como continuidade do lançamento nacional, a programação segue no Santuário Nacional de Aparecida (SP), fortalecendo o caráter espiritual e celebrativo da Campanha.
No dia 21 de fevereiro, às 19h30, será realizada a bênção de instalação do monumento “Cristo Sem Teto”, obra do artista canadense Timothy Schmalz, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. A escultura, que retrata Jesus identificado com as pessoas em situação de rua, simboliza o apelo da Campanha à solidariedade e ao compromisso concreto com os mais vulneráveis. A celebração será conduzida pelo presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler; pelo arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, pelo padre Jean Poul, secretário-executivo de Campanhas da CNBB e pelo padre Leandro Megeto, subsecretário-geral da CNBB.
Já no dia 22 de fevereiro, às 8h, o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, presidirá a missa de abertura da CF 2026, reunindo romeiros, agentes pastorais e fiéis de diversas regiões do país. As celebrações em Aparecida serão transmitidas pela TV Aparecida com exibição em outras emissoras católicas, ampliando o alcance da mobilização.




