
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou em propostas de delação premiada que uma doação de R$ 5 milhões destinada às campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2022 teve origem em negociação de propina.
O montante, segundo ele, funcionou como “contrapartidas financeiras” após um “ajuste indevido” com Gilberto Kassab, presidente do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado.
De acordo com os anexos da delação, Tarcísio teria ficado com R$ 2 milhões e Bolsonaro com R$ 3 milhões. Os repasses foram feitos por Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e um dos investigados na Operação Compliance Zero, que apura o escândalo do Banco Master.
Os valores estão registrados nas prestações de contas das campanhas, conforme consulta à base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A acusação de Vorcaro é de que as doações seriam uma compensação pela manutenção do Credcesta, cartão de crédito consignado para servidores públicos, no governo Tarcísio. O Credcesta é operado pela PKL One Participações, empresa ligada a parentes de Augusto Lima, sócio de Vorcaro. O credenciamento da empresa como consignatária ocorreu em maio de 2022, ainda na gestão anterior, e as operações foram suspensas em 19 de fevereiro de 2026, após a liquidação extrajudicial das instituições.
Delações rejeitadas pela PF e PGR
As revelações de Vorcaro estão em propostas de delação que foram negadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). A rejeição ocorreu pela terceira vez, sob a justificativa de ausência de fatos novos. No fim de agosto, o ex-banqueiro pediu para depor ao gabinete do ministro André Mendonça, relator da Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF).
O depoimento aconteceu em 27 de agosto, na penitenciária da Papudinha, onde Vorcaro está preso. A oitiva foi conduzida por João Azambuja, juiz auxiliar do gabinete de Mendonça, e acompanhada pelos advogados Daniel Bialski e Engels Muniz, além de um integrante do Ministério Público.
O ex-banqueiro reforçou as mesmas acusações em todas as tentativas de delação, mas os órgãos responsáveis apontaram falta de provas e documentos que sustentassem as alegações.
Kassab nega relação e classifica relato de “fantasioso”
Gilberto Kassab negou qualquer envolvimento. Em nota, o presidente do PSD afirmou que o relato de Vorcaro é “absolutamente fantasioso” e que o refuta “com veemência”. Kassab disse que nunca falou com o ex-banqueiro, pessoalmente ou por telefone, e que nunca tratou de doações com Augusto Lima ou Daniel Vorcaro.
“Não tenho qualquer relação com Daniel Vorcaro, nunca falei com ele, pessoalmente ou por telefone. Conheço Augusto Lima e Thiago Botelho, mas nunca tratei sobre o Credcesta. Não participei ou recebi nenhuma doação de Vorcaro, de Lima ou Botelho. Nunca recebi valores em espécie. São relatos que desconheço a origem e que não têm qualquer sustentação factual”, afirmou Kassab na nota.
Em visita a uma obra social ao lado de Ronaldo Caiado, Kassab voltou a comentar o caso: “Nem apoiei o Bolsonaro para presidente e nunca tive relação com Vorcaro e muito menos com doação de campanha vinculada a ele. Isso é fantasioso e não existe. Estou muito tranquilo”.
Tarcísio também se manifesta
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também negou envolvimento. Em nota, sua assessoria informou que ele nunca teve qualquer contato ou relação com Daniel Vorcaro e que não tinha conhecimento do fato mencionado. A campanha de Tarcísio em 2022, segundo a nota, contou com mais de 600 doadores e foi conduzida em estrita observância à legislação eleitoral.
A nota reforça que a prestação de contas foi regularmente apresentada e aprovada pela Justiça Eleitoral e que o governador não possui vínculo com o doador citado. A participação de instituições no sistema estadual de consignações, acrescenta o texto, ocorre por meio de credenciamento público regulamentado há mais de dez anos pelo Decreto nº 60.435/2014.
O credenciamento da PKL One Participações não constitui contrato com o Estado e não envolve repasse de recursos públicos, conforme a nota.




