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“Abstenção deve definir resultado da eleição”, diz cientista político da UFPR

“Abstenção deve definir resultado da eleição”, diz cientista político da UFPR
  • Publishedoutubro 23, 2026
Emerson Cervi analisa o cenário da reta final das eleições presidenciais. Foto: Arquivo do Portal.

A disputa pela Presidência da República entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chega à reta final marcada pelo equilíbrio nas intenções de voto. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (22) mostra os dois candidatos com 50% dos votos válidos cada, resultado que reforça a imprevisibilidade do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Para o professor e cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Cervi, o levantamento não permite identificar com segurança qual candidato está à frente. Na avaliação do pesquisador, a tendência é de uma disputa decidida por uma diferença pequena, na qual a participação dos eleitores pode fazer a diferença.

“É incapaz de nos dizer quem está na frente”, afirma Cervi ao analisar o resultado da pesquisa. Segundo ele, embora não exista empate na apuração final, o cenário indica que a diferença entre os candidatos deverá ser pequena.

Abstenção deve definir o resultado

Ao comparar a eleição presidencial de 2026 com a de 2022, Cervi identifica semelhanças importantes, principalmente em relação à abstenção e à proximidade entre os candidatos. Para o cientista político, a mobilização dos eleitores que podem deixar de votar é um dos fatores centrais para compreender o resultado do segundo turno.

“A eleição de segundo turno é definida pela abstenção”, resume.

Historicamente, a participação dos eleitores costuma ser menor no segundo turno em comparação com o primeiro. Em 2022, entretanto, o movimento foi diferente: a abstenção diminuiu na segunda votação, indicando que as campanhas conseguiram estimular a participação do eleitorado.

Para Cervi, esse comportamento pode voltar a ser determinante neste ano. Em uma disputa equilibrada, a diferença não depende necessariamente de uma grande migração de votos entre candidatos, mas também da decisão de comparecer às urnas.

“Tudo pode acontecer”, avalia.

Datafolha mostra empate nos votos válidos

A pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro mostra Lula e Flávio Bolsonaro com 50% dos votos válidos cada. Nos votos totais, que incluem brancos, nulos e indecisos, Flávio aparece com 47%, enquanto Lula registra 46%.

O levantamento foi realizado entre 20 e 22 de outubro, com 2.520 entrevistados em 153 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. 

Com a votação marcada para domingo (25), o resultado permanece aberto. Na avaliação de Emerson Cervi, a proximidade entre os candidatos torna a participação dos eleitores, a mobilização das campanhas e os acontecimentos da reta final elementos fundamentais para compreender o desfecho da eleição.

Candidatos à presidência estão lado a lado na disputa. Gráfico: Datafolha

Votos de candidatos derrotados podem não ser transferidos

Outro ponto analisado pelo professor é o destino dos votos recebidos pelos candidatos que não chegaram ao segundo turno.

Segundo Cervi, as pesquisas anteriores indicavam que a soma das intenções de voto dos candidatos que ficaram da terceira posição em diante deveria representar aproximadamente 12%. No resultado do primeiro turno, porém, esse grupo ficou entre 7% e 8%, o que pode indicar que parte dos eleitores já havia migrado para outras candidaturas.

Na avaliação do cientista político, não há motivos para esperar que esses votos sejam distribuídos de maneira necessariamente desigual entre Lula e Flávio Bolsonaro. A abstenção e a opção por votos brancos ou nulos também precisam ser consideradas.

“Não me parece que terá uma distribuição desigual desses votos. O que pode acontecer é a não participação”, afirma.

Debate da Globo pode mobilizar eleitores, mas mudança de voto é incerta

O debate presidencial da TV Globo, previsto para a reta final da campanha, também entra na análise sobre os possíveis movimentos do eleitorado.

De acordo com Cervi, os debates tendem a produzir maior impacto no início da campanha, quando uma parcela mais ampla dos eleitores ainda está formando sua opinião. Nos últimos dias antes da votação, esses encontros costumam ter maior efeito sobre a mobilização dos apoiadores que já possuem uma preferência definida.

Isso não significa, porém, que um debate na reta final seja incapaz de influenciar o resultado. Uma gafe ou um episódio negativo pode prejudicar um candidato, mas o efeito mais comum, segundo o professor, é o abandono da candidatura por parte de alguns eleitores, e não necessariamente a transferência direta do voto para o adversário.

O cientista político também critica o nível do debate público durante a campanha. Para ele, a disputa política tem sido marcada por ataques e ofensas em detrimento da apresentação de propostas e da discussão de conteúdo.

“Estamos em uma era que é melhor vencer pela ofensa e não pelo conteúdo”, analisa.

Cervi relaciona esse fenômeno à influência dos influenciadores digitais e à dinâmica das redes sociais, nas quais conteúdos de confronto podem ganhar visibilidade e repercussão.

O professor também espera que o debate seja acompanhado por uma checagem dos fatos apresentados pelos candidatos em tempo real. A verificação de declarações e informações durante a transmissão, na avaliação dele, pode contribuir para qualificar a discussão pública.

Quebra de sigilo bancário entra na disputa pela confiança

A estratégia de Lula de desafiar Flávio Bolsonaro a abrir o sigilo bancário também foi abordada na entrevista.

Para Cervi, as campanhas eleitorais são construídas, em grande medida, sobre a confiança que os eleitores depositam nos candidatos. Nesse contexto, a iniciativa do presidente busca provocar dúvidas sobre a credibilidade do adversário, especialmente entre os eleitores que ainda não estão plenamente convencidos de sua escolha.

Segundo o professor, questionamentos dessa natureza podem funcionar como instrumento para afastar uma parcela do eleitorado que ainda não consolidou sua preferência.

A disputa, portanto, não se limita à apresentação de propostas ou à comparação de governos. A percepção sobre a honestidade, a confiabilidade e a postura dos candidatos também pode influenciar a decisão final.

Por que uma terceira via não se consolida?

A polarização entre os dois principais candidatos também levanta a discussão sobre a dificuldade de uma terceira alternativa conquistar espaço na disputa presidencial.

Na avaliação de Cervi, a própria elite política contribui para limitar as opções apresentadas ao eleitorado, concentrando a disputa em torno dos nomes que já ocupam posições de destaque.

O professor também aponta a dificuldade de identificar uma demanda consistente por uma alternativa fora dessa polarização. Segundo ele, aproximadamente nove em cada dez eleitores procuram escolher um dos principais nomes colocados na disputa.

Nesse cenário, a construção de uma terceira via depende não apenas da existência de candidatos, mas também de condições políticas para que eles consigam se tornar competitivos e atrair eleitores para além de seus grupos de apoio.

Questionamentos às urnas: como a desconfiança entrou no debate político

Os questionamentos sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas se tornaram um dos temas recorrentes da política brasileira nos últimos anos, especialmente durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e nas eleições de 2022. A discussão também está relacionada a um movimento internacional de setores da extrema direita que colocam em dúvida instituições democráticas e resultados eleitorais.

Na avaliação do professor e cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Cervi, a contestação das instituições eleitorais ganhou força no Brasil principalmente quando os resultados contrariaram os interesses políticos desses grupos. Quando os resultados eram favoráveis, segundo o pesquisador, as críticas tendiam a perder intensidade.

O debate ganhou destaque em 2022, quando Bolsonaro questionou repetidamente a segurança do sistema eleitoral brasileiro e levantou suspeitas sobre as urnas eletrônicas sem apresentar provas que sustentassem alegações de fraude. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), manifestações e pedidos de intervenção militar foram registrados em diferentes regiões do país, em meio à contestação do resultado eleitoral.

A discussão também teve consequências institucionais. Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, em um processo relacionado à reunião com embaixadores realizada em julho de 2022, na qual o então presidente fez ataques sem provas ao sistema eleitoral. A decisão não teve como fundamento simplesmente questionar as urnas, mas o uso daquela reunião para atacar a legitimidade do processo eleitoral.

Questionamentos às urnas fazem parte de uma estratégia política

Cervi também analisou a permanência dos questionamentos sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas no debate público.

Segundo o cientista político, a contestação das instituições eleitorais foi incorporada à estratégia de setores da extrema direita em diferentes países. No Brasil, essa crítica ganhou força especialmente quando os resultados eleitorais contrariaram os interesses desse campo político.

Na avaliação do professor, o comportamento evidencia uma relação seletiva com as instituições: os questionamentos ganham força diante de derrotas e tendem a perder intensidade quando os resultados são favoráveis.

O tema permanece relevante porque a confiança no processo eleitoral é um dos elementos necessários para a aceitação dos resultados e para a estabilidade democrática.

Disputa pelo Governo do Paraná também envolve apostas políticas

Além da eleição presidencial, Cervi avaliou a disputa pelo Governo do Paraná e as estratégias adotadas pelos grupos políticos estaduais.

Para o professor, o grupo ligado a Sandro Alex e Ratinho Junior cometeu erros de avaliação eleitoral, especialmente ao considerar que conseguiria atrair os votos da base bolsonarista que já não acompanha Ratinho Junior desde 2024.

A análise aponta para os limites das alianças e dos cálculos eleitorais quando as bases de apoio deixam de responder como os grupos políticos esperavam. Mesmo quando existe proximidade entre determinados setores políticos, isso não significa que seus eleitores irão acompanhar automaticamente as escolhas das lideranças.

Assim como na disputa presidencial, o cenário estadual demonstra que a identificação política do eleitor e sua disposição para participar da votação podem ser tão importantes quanto os acordos estabelecidos entre partidos e candidatos.

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