
Por Lorena Santana, Maithê Galdino e Natalia Almeida
No dia 7 de abril é comemorado o Dia do Jornalista no Brasil em homenagem ao médico e jornalista Giovanni Battista Líbero Badaró, assassinado nesta data em 1830 por inimigos políticos. A data foi criada como uma forma de legitimar a atuação e assegurar os direitos dos e das jornalistas. Porém, ainda nos dias atuais, o cenário de ataques contra a categoria se mostra latente
Em 2024, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) registrou 144 casos de violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, sendo este, o menor número registrado nos últimos seis anos. A redução nos registros não significa uma diminuição na gravidade da situação, como aponta o relatório. (veja o relatório completo no final da matéria)
A região Sul é a segunda região com o maior crescimento no número de casos, com 31, contra 30 no relatório anterior, ficando atrás apenas da região Norte. E o Paraná, voltou a ser o estado da região Sul com o maior número de notificações, 15, quatro a mais do que em 2023.
Cerca de 16% dos casos são de assédio judicial, quando o agressor utiliza o sistema de justiça para intimidar e/ou censurar a vítima. Os principais autores das agressões são políticos, empresários e líderes religiosos. Entre esses agentes, a maioria se configura no campo ideológico da direita e extrema direita, respondendo por mais de 40% dos casos registrados neste Relatório.
TIPOS DE AGRESSÃO

Jornalista Mareli Martins já sofreu ataques e tentativas de intimidações

A jornalista independente Mareli Martins, que atua em Ponta Grossa, conta que antes de migrar para a área política, ela sofreu diversos ataques misóginos na área esportiva. Por se tratar de uma figura feminina, era bastante descredibilizada por parte da comissão técnica, jogadores e torcedores. “Muitas vezes, por ser mulher, acabava escutando um palavrão ou frases desrespeitosas. Insinuavam que eu não entendia sobre aquele esporte, principalmente o futebol”.
A região Sul apresentou a menor diferença percentual entre agressões a homens e mulheres, com 16 casos contra homens (50%) e 13 contra mulheres (40,63%). Santa Catarina e Paraná foram os únicos estados onde as vítimas femininas superaram os homens. Em Santa Catarina, foram cinco mulheres em oito casos, e no Paraná, sete mulheres e seis homens.
Mareli relata casos de violência de quando começou a trabalhar com a política. Um deles foi com o ex-governador Beta Richa na inauguração de uma fábrica em Castro. “Quando eu cheguei para fazer a entrevista e estiquei o braço para virar o microfone, um dos seguranças vem e me dá uma cotovelada. O microfone caiu e mesmo assim eu fiz uma pergunta pra ele [Beto Richa] e ele respondeu, eu não vou falar com você”.
Em 2015, a jornalista foi agredida verbalmente pelo ex-vereador Alysson Zampieri, do PPS, atual Cidadania, de Ponta Grossa. Ela o questionou sobre o não comparecimento na Câmara Municipal no horário das sessões legislativas que consta no regimento da casa. O vereador não respondeu à pergunta e declarou: “Não dou entrevista para jornalista que nos ataca.” Ele também assediou moralmente a jornalista, dizendo que daria entrevista apenas ao dono da rádio e a um dos comentaristas da emissora.
O ataque mais recente relatado pela jornalista foi do ex-Deputado Federal Sandro Alex durante as últimas eleições municipais de Ponta Grossa, referente à campanha de seu irmão, Marcelo Rangel. Mareli cobriu o lançamento de pré-campanha de Rangel e ela registrou que o candidato fugiu de entrevistas e de manifestantes. A matéria causou indignação em Sandro Alex que começou um ataque virtual contra a jornalista em aplicativos de conversa.
Medidas de acolhimento

A representante sindical, Aline Rios, explica que em 2017, o Paraná criou um Protocolo próprio para o acolhimento e atendimento a jornalistas vítimas de violência, devido ao exercício da profissão. No ano seguinte, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) avançou no sentido de ter um Protocolo Nacional.
O primeiro passo do protocolo seguido pelo sindicato consiste no acolhimento da vítima para o entendimento do caso e identificação do encaminhamento necessário. O Paraná conta com assessoria jurídica trabalhista e previdenciária, porém não possui assessoria jurídica criminal.
Em seguida, o caso é oficializado com a intenção de registrar a situação a fim de mobilizar políticas públicas e órgãos competentes.
Além disso, é feita uma denúncia pública para que a situação seja exposta com o intuito de sensibilizar a população.
Por fim, o sindicato busca acompanhar os encaminhamentos para se certificar de que o agressor será responsabilizado.
Aline ressalta a importância do fortalecimento dessas iniciativas e da atuação conjunta de diferentes instâncias para a proteção da categoria. “É essencial a atividade de atores institucionais como garantidores da nossa atividade e do direito da sociedade de ser informada”.
Linha histórica de ataques contra jornalistas e organizações jornalísticas nos últimos nove anos. Dados da FENAJ
| 2024 | 144 casos |
| 2023 | 181 casos |
| 2022 | 376 casos |
| 2021 | 430 casos |
| 2020 | 428 casos |
| 2019 | 208 casos |
| 2018 | 135 casos |
| 2017 | 99 casos |
| 2016 | 161 casos |
Relatório da Violência contra jornalistas 2024 FENAJ




