Prefeitura de Ponta Grossa repassa quase R$ 95 milhões para VCG nos últimos três anos: mesmo com subsídio, tarifa sobe para R$ 6

A Prefeitura de Ponta Grossa destina mensalmente uma quantia de dinheiro público (subsídio) para a Viação Campos Gerais (VCG), responsável pela concessão do transporte coletivo. Em três anos, foram repassados quase R$ 95 milhos para VCG, segundo dados do Portal da Transparência.
O cálculo da quantia é feito de acordo com a quantidade de passageiros do mês anterior, e ao final do mês é contabilizado o subsídio para saber se sobrou valor de crédito para o próximo mês ou se o valor utilizado foi maior do que o previsto e precisará ser integrado, conforme a Prefeitura.
O levantamento dos valores repassados pela Prefeitura para a VCG foi feito pelo Portal Mareli Martins. O Portal consultou o Portal da Transparência da Prefeitura de Ponta Grossa e também obteve documentos enviados pelo governo municipal.
Os valores de projeção de abril de 2023 a janeiro de 2026 chegaram a R$81.932.797,43. Já o valor de compensação no mesmo período, aquele reajuste do valor no final do mês, ficou de R$12.345.321,37. Juntos, eles somam R$94.278.118,80 que a Prefeitura deu dos cofres públicos para a VCG.
Mesmo com o valor de investimento considerável, a Prefeitura decretou aumento na tarifa do transporte público, o qual passará a custar R$1,00 mais caro, chegando ao total de R$6,00.
Grande parcela da comunidade de Ponta Grossa utiliza o transporte público diariamente. Analisando os últimos dados divulgados pelo Departamento de Transporte de Ponta Grossa (SMIP) sobre quantidade de passageiros, referente aos meses de agosto, setembro e outubro de 2025, a média fica de 1.862.006 passageiros que utilizam o transporte público mensalmente.
Repasses de recursos públicos para VCG por ano
| Ano | Projeção | Compensação | Total |
| 2026 (só de janeiro) | 2.223.617,75 | – 304.573,64 | 1.919.044,11 |
| 2025 | 26.886.585,18 | + 5.790.763,26 | 32.677.348,44 |
| 2024 | 27.999.453,20 | + 3.768.676,63 | 31.768.129,83 |
| 2023 (a partir de abril) | 24.823.141,30 | + 3.090.455,12 | 27.913.596,42 |
| TOTAL | 81.932.797,43 | 12.345.321,37 | 94.278.118,80 |
Repasse de dinheiro público tem apoio da Câmara de Vereadores
O atual contrato de 20 anos entre a Prefeitura de Ponta Grossa e a VCG deveria ter sido encerrado em junho de 2023, quando o contrato chegou ao fim. No entanto, a prefeita Elizabeth Schmidt não fez a nova licitação e de lá pra cá, tem feito várias prorrogações de contrato com a VCG. Em abril de 2023, a primeira prorrogação (que dava brecha para outras prorrogações) foi aprovada pelos vereadores de Ponta Grossa. Os vereadores também aprovaram a autorização para que a Prefeitura de Ponta Grossa pudesse mandar dinheiro público para VCG.
Naquele ano, a prefeita disse que “o subsídio serviria para baixar a tarifa ao usuário”. O valor ficou em R$ 4 para o usuário e a Prefeitura cobria o restante com o subsídio, de acordo com o valor da tarifa técnica, que oscila.
Mas em menos de 7 meses, a tarifa para o usuário já aumentou duas vezes, somente entre 2025 e 2026. Primeiro subiu de R$ 4 para R$ 5. E no dia 13 de abril vai subir de R$ 5 para R$ 6. Ou seja, mesmo com subsídio, o valor pago é muito caro para quem utiliza o transporte coletivo.
Relembre os vereadores que votaram a favor da prorrogação do contrato com a VCG e de mandar dinheiro público para VCG

Nova licitação nunca mais saiu
Em 2023, em seu primeiro mandato, a prefeita Elizabeth Schmidt (União Brasil) teve a oportunidade de dar uma solução para a questão do transporte coletivo, mas não realizou a licitação e prorrogou novamente o contrato com a Viação Campos Gerais (VCG), empresa que independente do governo, dita às cartas na cidade!
O contrato com a VCG deveria encerrar em junho de 2023, mas a Prefeitura de Ponta Grossa não fez a nova licitação e em cima da hora, com aval dos vereadores, prorrogou com a VCG usando a desculpa de que “se não renovasse com a VCG, a cidade ficaria sem transporte”.
Vale lembrar que desde que assumiu o mandato em 2020, Elizabeth sabia do término do contrato do transporte e não fez a licitação em três anos e nem em quatro. E agora está no primeiro ano do seu segundo mandato, mas a licitação segue travada.
No mandato anterior, a Prefeitura gastou mais de R$ 2,5 milhões em estudos sobre a nova licitação, mas nada aconteceu em efetivo.
A prorrogação com a VCG pelo período de dois anos encerra em junho de 2025, ou seja, ainda dá tempo para que ocorra a nova licitação. O problema é que tudo segue muito devagar pelos lados da Prefeitura e com a conivência de sempre da Câmara dos Vereadores, que não tem nem oposição! Não há cobranças por parte dos vereadores para que a licitação aconteça.
Também existe um silêncio por parte do Ministério Público e demais instituições que deveriam questionar a demora da licitação do transporte. É necessário um acompanhamento da nova licitação (se ocorrer) para garantir que não sejam critérios que beneficiem apenas a VCG, como já ocorreu em Ponta Grossa.
Em 2002, na gestão do ex-prefeito Pericles de Mello (PT), a licitação beneficiou claramente a VCG. Na época, a Viação Iapó participou da licitação e foi prejudicada porque existiam muitos critérios que favoreciam a empresa que mantém a concessão do transporte em Ponta Grossa. O assunto foi questionado na Justiça.
Recentemente os vereadores aprovaram a revogação da Lei 7.018/2022 do transporte coletivo. Além da revogação da lei, o PL nº 419/2024 garante que sejam mantidos os efeitos do contrato 143/2003, sobre os serviços firmados no contrato entre a Prefeitura de Ponta Grossa e a Viação Campos Gerais (VCG).
A empresa entrou na Justiça para impedir que na nova licitação tenha algum tipo de brecha para contratação de cobradores/trocadores ou de readmissão dos que foram demitidos, pois a VCG enfrenta ações judiciais.
A prefeita de Ponta Grossa afirmou que “a revogação da Lei 7.018 foi necessária para dar andamento à nova licitação”. Então que faça a licitação logo!
Por outro lado, há quem diga que tudo não passa de manobras para manter a VCG na concessão do transporte coletivo.
(Com a colaboração de Ester Roloff, estagiária de Jornalismo, conforme convênio de estágio firmado entre o Portal Mareli Martins e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).)
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