Clinicão e três veterinários são indiciados pela polícia civil por maus-tratos aos animais em Ponta Grossa

A Polícia Civil do Paraná indiciou formalmente três médicos veterinários e a clínica veterinária Clinicão por graves situações de maus-tratos contra animais em Ponta Grossa. A investigação apurou sobre o descarte indevido de animais e as inúmeras falhas operacionais da empresa.
A Clinicão atua, desde o início do ano, sobre contrato de licitação com o objetivo de prestar serviços contínuos, técnicos e integrados voltados ao funcionamento e operacionalização do Centro de Referência para Animais em Risco (CRAR), vinculado à Secretaria Municipal de Saúde de Ponta Grossa.
Segundo o relatório policial, vistorias realizadas por órgãos de fiscalização encontraram diversas irregularidades na clínica contratada. Entre os problemas relatados estavam: espaços de internação inadequados para os animais; confinamento conjunto de cães e gatos; falta de isolamento para animais com doenças infectocontagiosas; uso de caixas impróprias para recuperação pós-operatória; e animais mantidos em contato com urina, sangue e outros resíduos.
A investigação se aprofundou nos casos dos cães Primor e Menina, os quais foram abandonados próximos a uma linha de trem sem o acompanhamento pós-cirúrgico necessário, o qual resultou na necessidade de outra interferência médica para Primor. E do cão Wanderley, o qual foi submetido a cirurgia ortopédica supostamente realizada com uma parafusadeira doméstica contendo brocas enferrujadas, o que teria provocado uma infecção severa.
Além dos maus-tratos, a Polícia Civil afirma ter identificado indícios de fraude documental. As fichas de atendimento dos animais registravam informações falsas, incluindo a alegação de atropelamento e a utilização de dados de terceiros sem ligação com os fatos investigados. Segundo o relatório, o objetivo seria justificar procedimentos e cobranças ao poder público.
O delegado responsável, Derick Moura Jorge, concluiu que existem provas da materialidade do crime e fortes indícios de autoria contra os veterinários Bruno Gerytch Pitela, Breno Koehler de Oliveira e Victor Hugo Colino. O relatório atribui a cada um deles participação direta ou omissiva nas práticas investigadas.
A própria empresa Clinicão também foi indiciada. “Ficou demonstrado que os crimes de maus-tratos derivaram de decisões gerenciais e visavam o lucro financeiro direto da empresa em detrimento do bem-estar animal, esquivando-se dos custos operacionais de recuperação, medicação e alimentação pós-cirúrgica”, como diz o relatório policial
O relatório determina ainda o envio de cópia integral do inquérito ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO). O objetivo é apurar possíveis crimes relacionados à administração pública, fraudes em contratos, irregularidades licitatórias e eventuais esquemas de corrupção envolvendo a execução do serviço veterinário municipal.
Com a conclusão do inquérito, o caso será encaminhado ao Ministério Público, que decidirá sobre o eventual oferecimento de denúncia criminal contra os investigados.
CPI de investigação da Clinicão
Diante das irregularidades e inconsistências na atuação e contratação da empresa Clinicão Clínica Veterinária Popular Ltda, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instituída. A CPI tem poderes de investigação equivalentes aos das autoridades judiciais, servindo como importante instrumento de fiscalização.
O relatório parcial foi divulgado na Câmara Municipal pela vereadora Joce Canto, no início do mês, em uma tentativa de a Prefeitura tomar providências o quanto antes sobre a situação.
As investigações continuam, como a convocação de testemunhas para depor, que ocorreu na tarde desta quinta-feira (11), na Câmara Municipal de Ponta Grossa.
Maior poder de fiscalização para o Conselho
Durante a sessão ordinária na Câmara da última quarta-feira (10), foi votado com regime de urgência o Projeto de Lei Ordinária 211/2026, que é um adendo na lei do CMPDA (Lei nº 14.582). Como está posto no projeto:
“Fica assegurado aos membros do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (CMPDA), acesso amplo, imediato e compatível com o exercício de suas atribuições legais aos órgãos, equipamentos e locais públicos municipais, bem como às instalações, dependências, registros e documentos de empresas privadas, consórcios, organizações da sociedade civil ou quaisquer entes que prestem serviços públicos municipais, de forma direta ou subcontratada, na área de proteção, defesa e bem-estar animal”.
A lei do CMPDA já determina a fiscalização, contudo não está colocada de maneira clara e objetiva, o que resultou na perda da liminar para fiscalização da Clinicão. O desembargador entendeu que o Conselho não possui poder de fiscalização.
Com a colaboração de Ester Roloff, estagiária de Jornalismo, conforme convênio de estágio firmado entre o Portal Mareli Martins e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).




